A Selic a 15% e o grande assalto aos cofres públicos: Quem Realmente Lucra com os Juros Altos?
Por Paulo Lindesay*
Sabe aquele discurso que ouvimos repetidamente nos telejornais sobre a necessidade de aumentar a taxa Selic para “segurar o dragão da inflação”? Pois é, está na hora de tratarmos essa narrativa pelo que ela realmente é: um mecanismo sofisticado de transferência de renda dos mais pobres para os bilionários.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), a taxa básica de juros foi mantida em exorbitantes 15%. Enquanto o “mercado” aplaude, o desenvolvimento sustentável do Brasil sofre um obstáculo quase intransponível.
Na reunião mais recente, o COPOM decidiu manter a taxa SELIC em 15%. Qual é o significado disso para o grande capital financeiro rentista? Com a inflação dentro da meta, em 4,26%, e com a taxa SELIC fixada em 15%. O capital financeiro rentista garante um ganho real (inflação – SELIC) de aproximadamente 10,74%. Um dos maiores ganhos reais do planeta. Com o capital financeiro, o rentismo prevalece sobre o capital produtivo, fazendo com que as grandes empresas especulem em vez de investirem na produção.
A Grande Mentira: Selic vs. Inflação
O argumento oficial é que subir os juros controla o IPCA. No entanto, a prática desmente a teoria com uma facilidade desconcertante. Se olharmos para trás, em janeiro de 2016, tínhamos uma Selic de 14,25% e um IPCA de 10,71%. Mesmo com juros nas alturas, a inflação não cedia conforme o prometido.
Por que essa fórmula não funciona no Brasil? É simples: nossa inflação não é causada por um excesso de demanda (as pessoas comprando demais), mas sim pelos chamados preços administrados. Estamos falando de energia elétrica, combustíveis e transporte — itens controlados pelo próprio governo ou por contratos rígidos — além da alta dos alimentos causada pela prioridade dada ao agronegócio de exportação em detrimento da agricultura familiar. Elevar a Selic não faz o preço da gasolina baixar, mas garroteia a economia real.
A Dívida Pública: Um Crescimento Desenfreado
Outra falácia que precisa ser derrubada é a de que o ajuste nos juros ajuda a equilibrar as contas públicas. Os dados do Banco Central mostram o oposto. Entre janeiro de 2019 e novembro de 2025, o estoque da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) saltou de R$ 5,302 trilhões para impressionantes R$ 9,990 trilhões. São quase R$ 4,7 trilhões a mais em apenas seis anos.
Onde foi parar esse dinheiro? Não foi em estradas, hospitais ou escolas. Grande parte desse aumento é fruto direto da própria taxa de juros. Para se ter uma ideia do estrago, cada elevação de apenas 1 ponto percentual na Selic acrescenta, aproximadamente, R$ 61,4 bilhões ao saldo da dívida em um ano.
Ao analisarmos o período entre agosto de 2020 e junho de 2025, a Selic saltou de 2% para 15%. Esse aumento de 13 pontos percentuais gerou, por si só, um acréscimo de cerca de R$ 798,2 bilhões no estoque da dívida. É uma bola de neve alimentada pelo próprio sistema financeiro.
O Sofisma do Capital Rentista
O que vemos é um cenário onde a dívida cresce independentemente de a Selic subir ou descer, ou de o IPCA variar. Em um intervalo de 119 meses — de janeiro de 2016 a novembro de 2025 — o aumento total foi de R$ 6,008 trilhões. É uma trajetória de crescimento desenfreado que serve apenas para fortalecer a “moeda financeira”, o elemento mais prejudicial à nossa soberania econômica.
Nesse contexto, a visão crítica de Paulo Lindesay não pode permanecer em silêncio. Os argumentos veiculados pela grande mídia, pelo COPOM e pelo Banco Central constituem, na realidade, um grande sofisma do capital financeiro rentista. Enquanto se debate a redução de direitos sociais e serviços públicos fundamentais sob a justificativa de “falta de verba”, bilhões de reais são enviados mensalmente ao setor financeiro por meio dos juros. Nos últimos dez anos, de 2015 a novembro de 2025, o Brasil desembolsou aproximadamente R$ 5,9 trilhões apenas em juros consolidados no setor público. O Brasil é o único país do mundo que suporta uma sangria dessa magnitude em seu fundo público federal.
É necessário perguntar: a quem beneficia um Banco Central “independente” que mantém as taxas de juros em 15% enquanto a população enfrenta dificuldades para garantir a alimentação? A preservação desse modelo é uma decisão política que favorece o lucro de alguns em prejuízo da vida de muitos. O Estado brasileiro não está em colapso; ele está sendo esvaziado por uma política de juros que favorece apenas a elite financeira rentista e as grandes corporações.
Assim, a dívida pública, que poderia servir como um instrumento de financiamento para o Estado, está sendo empregada para assegurar a sustentabilidade da própria dívida. Ano após ano, o orçamento público tem assegurado previsões crescentes ao pagamento do serviço da dívida federal. A dívida pública atua como a principal represa do Estado social, permitindo a liberação de lucros crescentes e vitalícios provenientes do aumento dos ganhos do grande capital financeiro rentista e das grandes corporações.
*Paulo Lindesay, diretor da Executiva Nacional da ASSIBGE-SN
Coordenador do Núcleo Sindical Canabarro
Coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida Núcleo RJ.
