Medicamento reabilita paraplégicos mostra que em Ciência não se corta, se investe
Por Fernando Cruz Moraes*
Nos últimos dias, viralizou o vídeo de Bruno Drummond empurrando a cadeira de rodas de Laís Souza, ex-ginasta da seleção brasileira que ficou tetraplégica após um grave acidente em 2014. O incrível da imagem é que Bruno foi o primeiro paciente a receber a polilaminina, medicamento experimental desenvolvido no Brasil para tratar lesões na medula espinhal. Ele era tetraplégico e voltou a se movimentar graças a uma pesquisa iniciada há mais de duas décadas e liderada pela bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Nada disso é milagre. É ciência. São mais de 20 anos de pesquisa exaustiva e incessante, testes em laboratório, experimentos, formação de equipes e ensaios clínicos. Tudo realizado em uma universidade pública, sustentada por financiamento do Estado. Cada resultado concreto carrega por trás uma longa cadeia de investimento público. Quando o orçamento é cortado, essa cadeia se rompe. Pesquisas são interrompidas, equipes se desfazem e descobertas deixam de existir antes mesmo de nascer.
O caso da polilaminina revela o que o Brasil é capaz de fazer quando aposta em seus cientistas. A Dra. Tatiana e sua equipe enfrentaram décadas de dificuldades, escassez de recursos e burocracias para levar uma descoberta do laboratório ao leito hospitalar. Se hoje há esperança para pessoas com lesão medular, isso se deve à persistência de pesquisadores e à existência, ainda que precária, de políticas públicas de fomento à ciência.
Sucessivos governos têm cortado os pífios recursos destinados à Ciência e Tecnologia para servir ao Sistema da Dívida e cumprir metas de teto de gastos e arcabouço fiscal. Durante o governo Jair Bolsonaro, por exemplo, o desmonte da ciência foi brutal. Em outubro de 2021, o Ministério da Ciência e Tecnologia teve 87% de sua verba cortada, com o orçamento despencando de pífios R$ 690 milhões para apenas R$ 89 milhões. O corte pegou de surpresa milhares de pesquisadores que contavam com esses recursos para manter estudos em andamento, bolsas e projetos já aprovados, provocando paralisações, atrasos em pesquisas estratégicas e risco real de interrupção de linhas de investigação em áreas sensíveis como saúde, biotecnologia e inovação.
O governo Luiz Inácio Lula da Silva recolocou a ciência no discurso público, porém continua muito reduzida a destinação de recursos para Ciência e Tecnologia, devido à política de austeridade fiscal, que ainda impõe contingenciamentos e cortes de recursos que comprometem o planejamento de longo prazo e a continuidade de pesquisas que exigem estabilidade. Tudo para que, como sempre enfatiza a Auditoria Cidadã da Dívida, sobre mais dinheiro para o “Sistema da Dívida”.
Os dados do Orçamento Federal Executado (2025), segundo levantamento da ACD, escancaram a distorção: apenas 0,36% dos recursos federais vão para Ciência e Tecnologia, enquanto 42% são destinados ao pagamento de juros e amortizações da chamada dívida pública, o que equivale a cerca de R$ 2,1 trilhões. (veja aqui). Imagina se o orçamento de ciência, pesquisa e tecnologia fosse maior, com a qualidade de pesquisadores que o Brasil ainda possui!
Por isso, é fundamental defender a auditoria da dívida pública com participação cidadã, como propõe a ACD e reforçar a Campanha Nacional por Direitos Sociais, para que haja mais recursos para áreas estratégicas como Ciência e Tecnologia, entre outros direitos. Investir em ciência e tecnologia é investir em saúde, soberania e futuro. A história da polilaminina prova: em ciência, não se corta recursos, se investe.
*Jornalista da Auditoria Cidadã da Dívida /Mestre em Sustentabilidade pela UFSCar
