Semana de 29/03 a 31/03/2010

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O Jornal O Globo traz o resultado das contas públicas do governo federal em fevereiro, manifestando preocupação com o déficit primário de R$ 1 bilhão. Porém, somando-se os resultados de janeiro e fevereiro, houve um superávit primário de R$ 13 bilhões, ou seja, o país “economizou” esta quantia para pagar a dívida.

Conforme comentado em edições anteriores desta seção, a metodologia do superávit primário exclui do debate as despesas com o endividamento, fazendo parecer que o problema das contas públicas é o gasto social. Desta forma, o debate implícito na notícia de O Globo é sobre a possibilidade ou não do país cumprir a meta de superávit primário, por meio de cortes de gastos sociais. Nada se fala sobre os absurdos gastos com a dívida pública, que em 2010, somente até 26 de março, já chegaram a R$ 45 bilhões, mesmo desconsiderando-se a “rolagem” da dívida, ou seja, o pagamento de amortizações por meio da emissão de mais títulos.

Estes R$ 45 bilhões gastos até 26/3 representam mais de 4 vezes os gastos com saúde no mesmo período, ou mais de 9 vezes os gastos com educação, ou 380 vezes os gastos com Reforma Agrária.

Ou seja: governo e a grande imprensa se preocupam com as pequenas despesas (gastos sociais) enquanto grande volume de recursos públicos é destinado à dívida.

Por outro lado, artigo do Valor Econômico mostra o “custo pesado” da dívida pública no Brasil, decorrente da acumulação de reservas cambiais. Isto porque o governo compra dólares às custas da emissão de títulos da dívida interna (pagando os juros mais altos do mundo), enquanto aplica as reservas em títulos do Tesouro Americano, que não rendem quase nada. Segundo o artigo, “Na China, por exemplo, onde o custo de captação do governo é inferior aos juros internacionais, há, na verdade, ganhos fiscais com a gigantesca acumulação de reservas”.

O artigo defende a acumulação de reservas como uma forma de proteção contra as crises financeiras internacionais, porém, o artigo omite a possibilidade do Brasil estabelecer controle sobre os fluxos de capitais.

Governo tem déficit fiscal de R$ 1 bi
Autor(es): Agencia O Globo/Vivian Oswald
O Globo – 31/03/2010

Resultado foi o pior em 5 meses, apesar de arrecadação recorde para fevereiro

BRASÍLIA. A arrecadação recorde registrada pela Receita Federal (o melhor resultado para um mês de fevereiro) não foi suficiente para evitar o resultado negativo nas contas do governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social), de R$ 1,09 bilhão, no mês passado.

Trata-se de uma deterioração importante em comparação com o superávit primário (resultado positivo que significa economia para o pagamento de juros) de R$ 13,86 bilhões obtido em janeiro. Este foi o pior desempenho do governo central desde setembro do ano passado, quando registrou déficit de R$ 7,81 bilhões.

O resultado negativo de fevereiro, no entanto, não preocupa o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Ele afirma que não se deve avaliar o comportamento de um mês isoladamente. Segundo o secretário, a tendência de 2010 é de melhores resultados, e os dados de fevereiro não mudam esta perspectiva.

— Acho bom o resultado de fevereiro. O fato de ser negativo não significa nada quando comparado com as receitas extraordinárias de janeiro — disse o secretário.

Augustin também afirmou que o país poderá cumprir a meta de superávit do setor público para este ano (3,3% do Produto Interno Bruto, o PIB) sem a necessidade de abater gastos com investimentos, como aconteceu no ano passado.

No entanto, o Banco Central (BC) já trabalha com uma redução de até 1,12 ponto percentual do PIB da meta, o equivalente a R$ 38,7 bilhões. São R$ 5,1 bilhões acima do que o governo admitiu gastar com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no anúncio dos cortes do Orçamento de 2010. A previsão de aumento dessas despesas indica que o BC está trabalhando com um esforço fiscal efetivo para abater a dívida pública de 2,18% do PIB.

As receitas brutas do governo central em fevereiro chegaram a R$ 42,03 bilhões. Mesmo assim, ainda foram R$ 18,5 bilhões mais baixas do que os R$ 60,48 bilhões de janeiro. A diferença está no fato de as empresas terem antecipado no primeiro mês do ano o pagamento do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL).

Queda nas despesas não compensou receitas menores

As despesas também caíram, mas não o suficiente para compensar a queda das receitas.

Passaram de R$ 49,38 bilhões em janeiro para R$ 45,24 bilhões em fevereiro. Entre os gastos do governo, os investimentos aumentaram 81,5% de janeiro para fevereiro, passando para R$ 5,44 bilhões.

Desse total, R$ 4,57 bilhões são restos a pagar de projetos do PAC que já foram empenhados no ano passado.

— Está havendo e haverá um crescimento forte do investimento este ano. Temos orientação de melhorar o desempenho do investimento. E isso não tem nada a ver com o fato de ser 2009 ou 2010, ano eleitoral ou não — afirmou Augustin.

No primeiro bimestre, as receitas públicas superaram as despesas em R$ 12,77 bilhões, desempenho bastante superior aos R$ 2,86 bilhões do ano anterior. O secretário destacou que, com esse desempenho, o governo central já cumpriu boa parte da meta em valores do superávit primário até abril, de R$ 18 bilhões.

O nível ideal de reservas
Brasil
Autor(es): Cristiano Romero
Valor Econômico – 31/03/2010

A principal diferença entre a política econômica do governo Lula e a do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso foi a acumulação de reservas cambiais. Embora tenha herdado o tripé de política econômica do antecessor – superávit primário, câmbio flutuante e regime de metas para inflação -, o governo atual decidiu, em janeiro de 2004, acumular reservas com o objetivo explícito de diminuir a vulnerabilidade externa do país.

Em 2002, último ano do governo FHC, o Brasil possuía US$ 37,8 bilhões em reservas. No ano seguinte, o primeiro da Era Lula, fechou com US$ 49,2 bilhões, já contabilizando, portanto, um incremento significativo. Como a situação fiscal ainda era frágil – o país estava saindo, naquele momento, de uma grave crise de confiança -, o Banco Central (BC) só passou a acumular divisas de forma mais agressiva em 2006 (ver gráfico).

A acumulação de reservas não foi uma política isolada do Brasil. Depois da crise asiática, vários países emergentes decidiram criar um colchão de liquidez para se prevenir de futuras turbulências. Fizeram isso contra a opinião, inclusive, do Fundo Monetário Internacional. O Brasil aderiu alguns anos mais tarde, depois de pagar o preço da desconfiança externa na crise de 2002/2003. Hoje, possui US$ 243,6 bilhões em reservas, o equivalente a cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB).

A experiência internacional mostrou que ter reservas ajuda a prevenir crises cambiais e financeiras. Além disso, elas amortecem crises inevitáveis, como a de 2008/2009, ao permitir que um país preserve o seu consumo quando os termos de troca ou o financiamento internacional se deterioram. Um terceiro benefício, pouco mencionado, na opinião do economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre, é que possuir reservas reduz o custo de captação externa de uma economia, uma vez que o risco soberano diminui diante do acúmulo de divisas.

O processo de acumulação de reservas tem, como se sabe, um custo pesado no Brasil. As reservas são aplicadas lá fora a uma rentabilidade bem inferior ao custo de captação do governo no mercado interno. Essa conta é afetada pelas oscilações do câmbio, cujo efeito combina-se com o diferencial de juros para determinar o lucro ou prejuízo do BC (ou do Tesouro) na absorção e manutenção das divisas. “Na China, por exemplo, onde o custo de captação do governo é inferior aos juros internacionais, há, na verdade, ganhos fiscais com a gigantesca acumulação de reservas”, compara Schymura.

Diante do elevado custo de acumulação de reservas no Brasil, a questão premente é saber qual seria o seu nível ideal. Schymura, que se debruçou sobre o assunto recentemente e vai tratar dele na próxima Carta do Ibre, com divulgação prevista para amanhã, diz que o nível ideal de reservas pode ser avaliado tanto do ponto de vista normativo quanto positivo. No primeiro caso, constrói-se um suporte teórico, cria-se uma função objetiva e busca-se o ponto ótimo em termo de custo-benefício.

“Normalmente, no caso das reservas, os modelos relevantes têm como suporte teórico a interpretação de que seu acúmulo serve para evitar paradas bruscas na conta de transações correntes – e não fuga de capitais e crises bancárias. Assim, os resultados teóricos obtidos para o nível ideal de reservas, como seria de se esperar, acabam sendo inferiores aos praticados hoje pelos principais países emergentes”, diz o economista. Ao aplicar-se um desses modelos, conclui-se que o valor ótimo de reservas deve ser equivalente a 7,7% do PIB, metade do que o Brasil acumula hoje.

Os modelos positivos, por sua vez, partem da análise empírica dos processos de acumulação de reservas para explicar as diferenças entre os países. Em geral, o que se vê é que as principais características que explicam essas diferenças dizem respeito à abordagem comercial e à estabilidade financeira. “Adotando-se esse enfoque, o nível ótimo de reservas para países latino-americanos está em torno de 12% do PIB”, observa Schymura.

O diretor do Ibre faz questão de reconhecer o fato de o atual nível de reservas brasileiras, além de funcionar como um seguro anticrise, ter um papel contracíclico na dívida pública – na crise recente, o PIB caiu, a arrecadação tributária encolheu e o câmbio desvalorizou; como o país é, por causa das reservas, credor externo líquido, a dívida pública reduziu-se a níveis baixíssimos, na comparação internacional, em proporção do PIB. Apesar disso, Schymura acha que não há mais razões para o BC ampliar as reservas, como vem fazendo nos últimos meses.

De fato, o BC tem atuado muito mais na ponta compradora do que na vendedora de divisas, configurando uma postura assimétrica no processo de suavização dos movimentos da taxa de câmbio, uma das funções precípuas e declaradas da autoridade monetária. “Se as reservas já superam qualquer nível ideal que se estabeleça teórica ou empiricamente, justificar a intervenção assimétrica pela necessidade de acumular mais divisas perde o sentido”, opina Schymura. “Talvez, já seja hora de o BC rever a sua política de intervenção.”

Notícias diárias comentadas sobre a dívida – 30.03.2010

O Jornal Valor Econômico noticia que a Grécia emitiu € 5 bilhões em títulos da dívida, para pagar os débitos anteriores. As taxas de juros foram altas: 5,9% ao ano, ou seja, 3,25% acima dos juros pagos pelos títulos da Alemanha. Desta forma, crescem os pagamentos de juros, prejudicando os gastos sociais. A notícia também cita que o Banco Goldman Sachs, dos EUA, está sendo investigado pela Comissão Européia, por ter endividado a Grécia de forma irresponsável e não-transparente.

O jornal Valor também traz artigo do economista Delfim Netto, um dos principais responsáveis pelo endividamento público brasileiro. Em seu artigo, Delfim defende a atual política econômica, com superávits primários, o regime de metas de inflação, e a “independência do Banco Central”, alegando que tal política seria adotada “por mais de uma centena de países industrializados e emergentes”. Porém, Delfim omite que os países centrais não fazem superávits primários.

Por outro lado, Delfim reconhece que as altas taxas de juros internas estimulam a entrada de dólares no país, em busca de elevados rendimentos, ainda se aproveitando das oscilações do real frente ao dólar. Desta forma, Delfim defende o controle sobre o fluxo de capitais, reconhecendo também que até o FMI já defende a instituição de tais controles.

Grécia capta 5 bilhões de euros, mas preço alto mostra ceticismo
Autor(es): Kerin Hope e David Oakley, Financial Times, de Atenas e Londres
Valor Econômico – 30/03/2010

A Grécia articulou um retorno bem-sucedido aos mercados de capitais ontem, ao captar € 5 bilhões numa nova emissão de bônus sindicalizados, mas o preço elevado que foi obrigada a pagar sinalizou que os mercados continuavam céticos em relação ao pacote de resgate liderado pela União Europeia da semana passada. O euro, porém, teve alta ante um grupo de moedas, incluindo o dólar, iene e a libra esterlina, depois que os gregos obtiveram a quantia almejada pelo bônus de sete anos.

Petros Christodoulou, responsável pela agência de administração da dívida pública, disse: “Completamos todas as nossas necessidades de captação de recursos para abril com essa transação. Tivemos uma excelente distribuição.”

Os maiores fundos de pensão e as maiores seguradoras da Europa foram grandes compradores dos bônus, num indício de modesta confiança do mercado em Atenas. Os bancos centrais europeus também participaram na emissão. Mas o custo de captação de empréstimo enfrentado pela Grécia permaneceu elevado, com o cupom sobre os bônus de sete anos fixado em 5,9%, 325 pontos-base acima dos bunds alemães equivalentes.

Autoridades gregas nutriram expectativas de que o pacote de apoio acertado na cúpula da semana passada em Bruxelas – com a decisão do Banco Central Europeu, de manter sua estrutura de liquidez atual – desencadeasse uma queda imediata nos spreads. Gary Jenkins, responsável por análise de renda fixa no Evolution, disse: “Sem o pacote de ajuda da UE, é possível que a Grécia nem tivesse condições de se dirigir ao mercado sob nenhuma hipótese. Mas esses rendimentos continuam elevados demais para a Grécia.”

Os € 5 bilhões (US$ 6,7 bilhões) tomados em títulos de dívida de sete anos representam a terceira sindicalização de bônus grego nesse ano, sendo que Atenas já captou € 18 bilhões neste ano, dos € 53 bilhões que o governo pretende levantar nos mercados de capital em 2010.

O livro de intenções de compra de ontem aumentou para € 6 bilhões, composto na sua quase totalidade por destacados fundos de pensão, companhias de seguro de vida, gestores de ativos e bancos privados europeus. Praticamente não foram vendidos bônus a fundos de hedge, sendo que banqueiros diziam que as autoridades gregas os desaconselharam a efetuar esse tipo de venda.

Pela primeira vez no ano, dois bancos franceses, a subsidiária grega do Société Générale e do Crédit Agricole, o Emporiki, estiveram entre os cinco bancos gregos e internacionais que administraram o negócio. Gestores de títulos de dívida disseram que a presença deles garantirá a participação dos fundos de seguro e de pensão franceses na nova emissão.

O governo grego minimizou sugestões de que instituições de crédito francesas teriam sido selecionadas para administrar a emissão do bônus no propósito de mostrar o reconhecimento da Grécia pelo apoio político francês nas negociações para o pacote de socorro.

Os outros administradores do negócio foram Bank of America Merrill Lynch, ING e o Alpha Bank da Grécia – também foram selecionados pela primeira vez neste ano.

Não houve nenhum comentário oficial sobre a ausência, da transação de ontem, do Goldman Sachs, administrador da primeira emissão sindicalizada neste ano. O banco de investimentos dos EUA organizou uma polêmica série de swaps para os governos gregos anteriores, que recentemente foram submetidos a análise minuciosa pela Comissão Europeia.

Credibilidade é coisa séria
Brasil – Antonio Delfim Netto
Autor(es): Antonio Delfim Netto
Valor Econômico – 30/03/2010

Desde o Plano Real vimos consolidando o uso da política econômica canônica, utilizada por mais de uma centena de países industrializados e emergentes. Ela apoia-se, basicamente, num tripé: 1º ) política fiscal cuidadosa que, ao mesmo tempo, mantém déficits nominais em torno de 3% do PIB e superávits primários que levam à queda monotônica da relação dívida pública/PIB (importante para a formação da taxa de juro real); 2º ) política monetária que, com um Banco Central operacionalmente autônomo, busca a estabilização da taxa de inflação anual em torno de uma “meta” (hoje 4,5%); e 3º) política de câmbio flutuante com quase completa liberdade de movimento de capitais.

Essa política econômica tem certamente enormes virtudes. Não podemos esquecer, no entanto, que entre 1995 e 2002 o Brasil “quebrou” duas vezes e teve de se socorrer às pressas do FMI. A taxa de inflação média entre 1996 e 2002 reduziu-se ao quase civilizado nível de 7,3% (contra o nível selvagem de 868% ao ano entre 1989 e 1995). No período, graças a juros reais teratológicos, a relação dívida líquida/PIB chegou a 55,5% em 2002 (a despeito das úteis privatizações feitas meio sem jeito!). Não menos dramática foi a acumulação de um déficit em conta corrente da ordem de US$ 186 bilhões, que explica aquelas “quebras”. A melhoria da situação externa de 2003 em diante foi um “bônus” que recebemos da expansão dos preços mundiais. Teve pouco a ver com nossa política econômica dos últimos 15 anos. Por fim, mas não menos trágico, foi o pífio crescimento anual médio do PIB de 2,3% entre 1995 e 2002.

É sempre difícil avaliar objetivamente um plano de estabilização devido às suas múltiplas dimensões. O Plano Real, por exemplo, “domina” praticamente todos os seus competidores (Argentina, Israel, México) em velocidade e sucesso na redução permanente da taxa de inflação, mas é “dominado” por eles em matéria de crescimento posterior. Não pode haver dúvida, entretanto, que da mesma forma que a Constituição de 1988 iniciou um ciclo de avanço institucional importante para a construção de uma sociedade próspera e mais justa, o Plano Real (sua implementação) iniciou um novo momento na “história deste país”. A cidadania entendeu os benefícios às vezes insuspeitados da estabilidade monetária. A última geração de cidadãos, os nascidos desde 1985, não tem a menor experiência com as tragédias produzidas pela alta e instável taxa de inflação que vivemos.

Certamente, esse produto virtuoso é resultado da política fiscal, executada com responsabilidade, e da política monetária conduzida por um Banco Central operacionalmente autônomo que soube construir sua “credibilidade”. Não é preciso, entretanto, concordar com a ação do Banco Central para reconhecer que sua “credibilidade” é, talvez, o mais importante fator da estabilidade social em que vivemos. Com estimativas críveis da taxa de inflação futura criaram-se condições para a construção negociada de uma política salarial que ao mesmo tempo em que melhora a distribuição de renda (aumentos dos salários acima da inflação), aumenta o estímulo ao investimento e seu financiamento interno (aumento da taxa de retorno do capital com aumento do salário menor do que a produtividade do trabalho).

Com relação à política cambial é cada vez mais evidente (e agora reconhecido mesmo pelos economistas do FMI que se supunham portadores da “verdadeira” ciência econômica) que nos países emergentes um controle do movimento de capitais, feito com inteligência e cuidado pode, em condições especiais, ser de alguma utilidade. O real é hoje um puro ativo financeiro nos portfólios de fundos que exploram em milissegundos as oportunidades de lucro criadas por fatos reais (diferenças de taxas de juros) ou incestuosos, gerados por “expectativas” que eles e seus comparsas nacionais criam para explorar os incautos.

Podemos estar seguros que não é por altruísmo patriótico, ou por serem portadores do monopólio da sapiência que lhes dá a famosa teoria do equilíbrio geral (cujas limitações ignoram), que os agentes do sistema financeiro passeiam na imprensa seus elegantes argumentos! Enquanto o Banco Central não se convencer que seu “modelo” (como a fábrica de “salsichas” de Bismarck), só pode pôr fora (a estimativa da taxa de juro real de equilíbrio) o que antes colocou-se lá dentro: os trágicos dados empíricos da política de juros teratológicos que nos assombra há uma geração. Em poucas palavras: enquanto a taxa de juros real interna não for, com pequenos desvios aleatórios, igual à taxa de juros externa, o câmbio flutuante atenderá mais aos interesses do sistema financeiro do que aos da economia real que produz o PIB e gera emprego.

É evidente que isso não é uma crítica à autonomia operacional do Banco Central. Infelizmente, entretanto, a última Ata do Copom, com suas contradições, talvez necessite de uma explicação produzida pela lógica dialética. Para os pobres seres primitivos que se submetem à lógica aristotélica, ela tisnou a “credibilidade” do Banco Central com uma decisão que pareceu mais político-oportunística do que “técnica”, ainda que duvidosa.

Notícias diárias comentadas sobre a dívida – 29.03.2010

O Jornal Valor Econômico noticia o relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que aponta como causa do apagão de novembro de 2009 a falta de investimentos na modernização e manutenção das linhas de transmissão. Em 2006, metade dos pára-raios já eram obsoletos, segundo a Aneel.

Sobre este tema, cabe ressaltar que o setor de energia tem recebido uma fatia irrisória do Orçamento Geral da União. Em 2009, por exemplo, a dívida pública consumiu 36% do orçamento, enquanto o setor de energia ficou com apenas 0,06%, ou seja, 600 vezes menos.

O Jornal Valor também mostra o acordo da Grécia com o FMI e outros países europeus, para o acesso a empréstimos que servirão para o pagamento da dívida que está vencendo. Logo após o anúncio deste acordo, os investidores comemoraram, e o governo grego também. Porém, cabe comentar que este acordo implicará em severos cortes de gastos sociais, prejudicando os trabalhadores e aposentados, para salvar os rentistas.

Furnas atrasa quatro anos modernização de linhas
Valor Econômico – 29/03/2010

A postergação de investimentos em modernização e manutenção da estatal federal Eletrobrás Furnas, e por consequência para-raios obsoletos operando no principal sistema de transmissão do país, é apontada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) como um dos fatores que levaram à queda, nunca antes registrada, das três linhas de transmissão do sistema Itaipu. A queda ocasionou um apagão sem precedentes em novembro de 2009.

O relatório de fiscalização da Aneel diz ainda que a modernização foi postergada com ciência do Operador Nacional do Sistema (ONS) e que a troca do próprio sistema de comunicação de Furnas, recomendada depois do apagão de 1999, também não havia sido feita até agora. A troca do sistema é de responsabilidade do ONS e de Furnas, segundo a agência.

Isso já sinaliza que também o ONS poderá ser responsabilizado quando a Aneel concluir a fiscalização do operador. Isso porque as empresas Copel, Eletrosul, CEEE, Cemig e Chesf já tinham efetuado a troca de 100% dos equipamentos e no lote de responsabilidade de Furnas, apenas 35%. Os problemas no sistema de informações ampliaram a abrangência do apagão e fizeram com que a luz demorasse mais a ser restabelecida, segundo a Aneel.

Furnas se defende dizendo que investiu, entre 2005 e 2009, R$ 1,2 bilhão em modernização de seus sistemas de transmissão. Mas esse valor não chega a 20% dos investimentos liberados pelo governo federal para serem feitos pela companhia no mesmo período. Se levado em conta todo o orçamento aprovado pela União no período para Furnas, de R$ 37 bilhões, o valor investido não chega a 3,5% do total. E não é por falta de resultados. Nos quatro anos mencionados pela companhia, o lucro foi de mais de R$ 2,5 bilhões, números registrados até setembro de 2009.

O grande questionamento da Aneel está no fato de que a obsolescência dos equipamentos de Furnas foi constatada em 2003, ou seja, há quase oito anos. O prazo dado para a modernização foi o ano de 2006. Naquele ano, 50% dos para-raios eram obsoletos. Mas postergações, aprovadas e acompanhados pelo ONS, deram permissão para que o plano fosse executado até dezembro de 2010, segundo o relatório da agência. Além disso, o relatório destaca que desde 2005 foram registradas cem ocorrências no sistema 765 kV de Itaipu e que, no período de oito anos, fora, aplicadas 17 sanções administrativas irrecorríveis em função de falta de manutenção.

A empresa tentou justamente argumentar com a Aneel que tinha essa autorização, até 2010, para fazer a modernização do sistema de transmissão de Itaipu. Mas um dos pontos que a agência destacou, para referendar a multa de R$ 54 milhões dada à companhia em função do apagão foi o fato de que em julho um evento parecido havia ocorrido nas linhas da empresa em Ivaiporã. Naquela época, a estatal discutia sua receita anual com a agência e se comprometeu até setembro de 2009 rever os reatores do terceiro circuito de Ivaiporã. Mas essa correção não tinha sido feita até o dia do apagão. A empresa alegou, entretanto, que não tinha obrigação de fazer os ajustes e mesmo assim vinha fazendo e que a unidade do Circuito 3 estava para ser reajustada no dia 11 de novembro, ou seja, um dia depois do apagão.

Além disso, Furnas diz que o próprio relatório do ONS atribui a condições climáticas severas a causa do blecaute. Mas mesmo que esse ponto tivesse sido levado em consideração, a agência teria multado Furnas de qualquer forma, porque verificou que seus funcionários não receberam treinamento adequado e cometeram alguns erros que fizeram com que cargas que já tinham sido normalizadas fossem novamente desligadas.

As três linhas de Itaberá-Ivaiporá que ao caírem simultaneamente provocaram o apagão são responsáveis pelo fornecimento da parte brasileira da energia de Itaipu, que corre a 60 Hz. Mas a magnitude do apagão também levou que as duas linhas de corrente contínua que transmitem a energia paraguaia da usina, a 50 Hz, também caíssem. O sistema consegue suportar a queda de duas linhas de Itaipu, como aconteceu no dia 22 de julho do ano passado. Mas não estava preparado para a queda das três linhas.

Segundo o relatório da Aneel, no dia 16 de dezembro um novo evento do mesmo tipo registrado nos meses de julho e novembro aconteceu. Como o problema dos equipamentos em Furnas ainda não foi resolvido e o sistema está sujeito a novos desligamentos, o ONS decidiu reduzir a carga de Itaipu que passa pelas três linhas da empresa. Para compensar essa redução de energia no sistema, chamada de contingência tripla, determinou o acionamento de térmicas que custam R$ 12 milhões por dia ao consumidor.
Grécia testa ajuda com emissão bilionária
Autor(es): David Oakley, Kerin Hope, Quentin Peel e John Thornhill, Financial Times, de Londres, Atenas, Bruxelas e Cernobbio
Valor Econômico – 29/03/2010

A Grécia está prestes a lançar uma bilionária emissão de bônus denominada em euros nesta semana, num teste vital da confiança no pacote de ajuda acertado pelos líderes da zona do euro para o país sacudido pela crise. “Gostaríamos de retornar ao mercado ainda em março”, disse Petros Christodoulou, responsável pela agência de gerenciamento da dívida pública do país ao “FT”, na sexta-feira. Atenas queria tomar cerca de € 5 bilhões (US$ 6,7 bilhões) dos mercados de bônus, ele afirmou.

Os comentários de Christodoulou vieram no rastro do acordo alcançado em Bruxelas entre os líderes da zona do euro em torno de um plano de socorro que incluiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) e empréstimos bilaterais coordenados de países da zona do euro a taxas de juro de mercado.

As cotações das ações e bônus gregos dispararam com a notícia do acordo, alcançado depois que França e Alemanha concordaram com os princípios de um resgate, enquanto o euro dava um salto ante o dólar. George Papandreou, o premiê grego, saudou o acordo como “um ótimo resultado para o nosso país”.

“Os líderes da União Europeia conseguiram resguardar a nossa união e a nossa moeda comum”, ele disse, ao fim da reunião de cúpula da UE em Bruxelas. Ele insistiu em afirmar, porém, que não pretende pedir dinheiro de nenhum dos parceiros da Grécia na zona do euro. “Esperamos jamais ter de pedir, pois estamos fazendo o nosso trabalho”, afirmou. “Tivemos uma reação positiva do nosso povo e também dos mercados.”

O acordo em torno da Grécia significou uma derrota para o Banco Central Europeu, que se opôs a um maior envolvimento do FMI. Em entrevista ao “FT”, Lorenzo Bini Smaghi, membro do conselho executivo do BCE, disse que “delegar ao FMI não é uma solução de longo prazo”. A zona do euro necessita de um mecanismo, de forma que “se alguma coisa como isso acontecer de novo tenhamos os instrumentos para lidar com ela”.

Estima-se que a Grécia emita um bônus de três anos ou sete anos, que seria seguido por uma emissão de tamanho semelhante em abril. Atenas precisa levantar € 10 bilhões para refinanciar dívidas que vencem ao longo do próximo mês. Analistas alertaram que um longo tempo transcorrerá até cair o rendimento dos bônus gregos, que se move inversamente em relação aos preços.